domingo, 21 de julho de 2013

On Our Own Way

Capítulo 1
Pronto. Tudo estava pronto. Minha casa estava um pouco estranha, mas estava bom o suficiente para o começo da minha vida em Londres. Era estranho viver ali – o lugar que eu sempre quis morar. Estava fazendo engenharia no Brasil e depois de dois anos e meio de faculdade, consegui a transferência para a Universidade de Londres. O curso é difícil – dizem que medicina é difícil para entrar e que engenharia é difícil para sair e com toda certeza posso afirmar a frase. Viver sozinha era um desejo antigo, meus pais sentiriam a minha falta, mas eu precisava me encontrar. Afinal, eu tinha 20 anos e eu não havia feito metade das coisas que eu queria fazer na minha vida. Não fiz tatuagem, não pintei meu cabelo e nunca havia namorado ninguém.

O clima aqui era frio e nublado. Não como diziam que chove o tempo todo. Era aquele o qual eu amaria estar. Meu apartamento era pequeno – tinha dois quartos, uma cozinha no estilo americano e um banheiro. A sala era confortavelmente aconchegante o sofá bege de couro, um tapete bem felpudo e uma televisão pequena LCD presa à parede. Muitos quadros que eu havia customizado com frases, fotografias da minha família e com meus amigos estavam espalhados pelo ambiente. No meu quarto, principalmente, havia um mural grande cheio de fotografias e cartas das minhas amigas. estava ansiosíssima para conseguir estudar comigo aqui em Londres – ela era a minha melhor amiga – porém ela estava há um ano na faculdade e precisava de pelo menos mais um ano para conseguir vir para cá.

Liguei o meu notebook e coloquei para tocar Calvin Harris pelo meu lar. Dançava sorrindo por todos os cômodos, rodopiando e tocando as paredes. Eu estava começando a ser eu mesma, sem os limites da casa dos meus pais. Sorrir era algo que eu fazia frequentemente, mas eu nunca havia sorrido com a alma como eu estava fazendo agora.

Comecei a rir, era engraçado com enfim as coisas iriam dar certo. Eu tinha pedido a dona de um café, perto da minha casa, se ela precisaria de uma garçonete. Sua filha tocou a minha campainha hoje de manha, o nome dela era , uma menina muito bonita e simpática, veio me trazer boas novas – ela havia me aceitado. Conversamos um pouco, ela me contou que estava namorando há dois anos um menino da faculdade a qual eu iria fazer. Ela estudava lá também – moda. Via-se que ela tinha estilo. Ela era um ano mais nova que eu também.

Gostava de me sentir bem em um lugar que era novo para mim. Sentei ao sofá estiquei as pernas e tocava Fort Minor e eu cantarolava baixinho, ouvindo os pingos de chuva. Como eu amava tudo isso. Meu telefone tocou, meus pais queriam saber como estava minha terceira semana em Londres e que assim que pudessem viriam me visitar. Logo depois recebi uma mensagem em meu celular – meu horário de trabalho que era para começar amanhã, foi mudado para hoje. Segunda feira. Coloquei um cardigan cinza, uma botinha preta de salto e prendi os cabelos em um rabo de cavalo alto com um leve topete.

Entrei no café e havia umas dez pessoas lá dentro. O café era novo e era bem arrumado. Pequeno, aconchegante e o café ali era delicioso.
- Olá. – cumprimentei minha chefe Marta. – Uau, vocês vão precisar mesmo de mim.
- Oi , é claro. Você consegue imaginar que em plena segunda estaria esse movimento logo às 2 da tarde? – ela disse me entregando um avental marrom. – Minha filha vai adorar sua saia vermelha.
- Obrigada. – respondi colocando o avental sobre o meu corpo. – Onde está ?
- Ela foi levar o notebook dela para o namorado, ele entende de informática, ela vive estragando o computador. – Marta respondeu revirando os olhos e sorrindo para uma mulher que lhe pagava o que havia comido. – Olha chegou um casal novo vai lá.

Trabalhei como nunca havia trabalhado – era meu primeiro emprego. Eu tinha uma facilidade enorme de me comunicar com as pessoas, gostava de contato, apesar dos ingleses serem um pouco menos calorosos que os brasileiros. Ganhei boas gorjetas e algumas cantadas.

- Que saia mais linda, . – disse se aproximando de mim para me cumprimentar, enquanto eu limpava uma mesa.
- Oi você. Obrigada. – sorri. – No Brasil eu usaria somente ela, não com essa meia calça preta.
- Ai você é mesmo bem sortuda. – ela riu e eu não entendi, acho que ela percebeu pela minha expressão fácil e prosseguiu. – Olha, disfarçadamente, para o carinha ali do canto olhando para você.

Fiquei procurando desesperadamente e gargalhou.
- Eu disse disfarçadamente. – e ela riu porque ele estava saindo da loja.
- Não acredito que perdi.

Apenas consegui enxergar cabelos castanhos claros e um casaco preto. Nada mais.
- Menos papo, mais trabalho. –disse Marta em tom sério e depois riu.

Eu havia adorado o primeiro dia ali. Era exatamente o que eu esperava que fosse. Eu queria fazer tudo como eu estava fazendo. Minha faculdade começaria na próxima semana e eu estava empolgada como as coisas estavam indo. Despedi-me das duas, às nove da noite e fui indo para casa a pé, afinal eram quatro quadras na direção leste.

Estava garoando e frio. Caminhei mais rápido para evitar me molhar muito. Havia bastante movimento naquela rua, sem querer esbarrei com um grupo de amigos.
- Perdão. – respondi após bater no ombro de um deles e quase cair.

Ele sorriu. Um homem segurou-me pelos braços. Ele tinha os cabelos curtos e uma boca grossa e nela um sorriso incrivelmente sensível.
- Desculpe-nos pela nossa grosseria. – ele tinha uma voz agradável, fazendo sincronia com todo o resto dele. – Você está bem?
- Estou. – respondi conferindo meu tornozelo que doía um pouco. – Mas tudo bem.
- Você sabe se o café fechou?
- Fechou. – eu respondi cruzando os braços por causa do frio. Eu devia ter trazido o meu sobretudo preto.
- Droga. – outro menino, loiro, muito bonito disse impaciente. – Eu sabia .
- Vocês vão ficar parados ou vão voltar para casa? – um homem moreno perguntou coçando a barba e sorrindo para mim, a intrusa do grupo.
- Com licença, eu tenho que ir. Boa noite. – disse tentando sair do meio deles.

Era estranho e medonho ficar parada no meio de três homens. Eu não me sentia muito confortável, ainda mais estando sozinha em outro país. Esse receio de ser atacado, o medo de conhecer pessoas novas, adquiri da minha mãe. Ela sempre foi muito preocupada com essas coisas e eu tinha razões para entende-la – ela foi assaltada diversas vezes quando saía do trabalho para casa.

Quando estava na metade da quadra ouvia os meninos que eu havia esbarrado atrás de mim. Eu estava começando a entrar em pânico – eles poderiam abusar de mim, me atacar e até mesmo me matar. Comecei a acelerar o passo e eu ouvi um deles exclamar um “ei”.

Logo o meu prédio apareceu e comecei a me sentir mais aliviada, havia um porteiro lá – o John. Qualquer coisa era só gritar? Não sei como as pessoas daqui lidavam com esse tipo de coisa. Lembro-me bem de ler muito suspense/romance policial sobre crimes em Londres. Por mais fictícios que fossem pareciam, naquele momento, ganhar vida.

Pisei no tapete de entrada e então parece que tudo ficou mais leve. Dei boa noite ao John e esperei o elevador impacientemente, sei que me sentiria salva quando estivesse trancado a porta da minha casa e estivesse deitada na minha cama.
- Boa noite John! – dois dos meninos entraram no prédio fazendo o meu coração acelerar.
- Hey, você que esbarrou na gente. – o menino sorridente disse animado. – Desculpe se a gente te assustou me chamo .

Apenas sorri e encarei o elevador.
- O gato mordeu sua língua? – o homem loiro, bonito, perguntou rindo. – Sou .
- Não. – eu disse de cabeça baixa.
- Não somos mais estranhos. – riu.
- Querida, eles são loucos, mas são gente boa. – John disse ajeitando os óculos sobre o nariz ao virar a página do jornal.
- Viu só? – disse sorrindo e acho que eu devia parar de encará-lo.
- Tudo bem. – eu tentei ceder, eu estive apavorada. – .
- Como? – os dois perguntaram em coro.
- . – eu disse revirando os olhos, abrindo a porta do elevador. – Entrem.

Os dois entraram rindo e apertou o oitavo andar.


Eu apertei o quinto.

- E então, você é de onde? Esse sotaque não nos engana. – parecia ser uma pessoa simpática.
- Desculpe, eu estou um pouco assustada. Achei que vocês fossem me assaltar, sou do Brasil. – disse um pouco sem graça.
- Brasil? Uau, que bacana. – disse espontaneamente. – Quero muito conhecer lá.
- Vocês não estavam em três? – perguntei quando vi o quarto andar se aproximando.
- O nosso outro amigo foi passar a noite na namorada. Ela é filha da dona do café o qual perguntamos para você.
- ? – perguntei abrindo a porta do elevador.
- Vocês se conhecem? – os dois perguntaram rindo.
- Eu trabalho lá, na verdade comecei hoje. – eu ri e balancei a cabeça. – Acho que nos vemos por aí.
- Noite . – eles cantarolaram isso me fazendo rir e ir para o corredor.
- Ai esses garotos. – Margareth, minha vizinha disse sorrindo. – São adoráveis.
- A senhora os conhece?
- Eles cantam em alguns pubs por aí, eles sempre vinham aqui em casa tocar para mim. São como se fossem meus netos. – ela dizia acariciando Garfield, seu gato gordinho e peludo.


Ela sempre deixava a porta aberta de casa. Nunca se sabe quando ela precisaria de ajuda. Dei boa noite a ela, depois de acariciar o bicho e entrei em casa. Que dia estranho, conheci meninos lindos, gentis, trabalhei e tinha um admirador secreto. Por que mesmo que eu pensei nele? Talvez por estar muito sozinha e me atracar a qualquer possibilidade. Eu era estranha, não me achava bonita, odiava as minhas pernas, minhas covas, meus olhos tinham alguns pés de galinha. Um menino que eu fiquei no Brasil dizia que eu era louca, porque ele não via essas coisas em mim. Mas quem tiraria isso da minha cabeça?

Na secretária eletrônica havia uma mensagem dos meus pais me desejando boa noite e outra de . Caminhei preguiçosamente pela sala e joguei minhas botas lá, indo até o quarto. Tirei minha roupa e fui para o banho. Deixei a água percorrer o meu corpo e fiquei pensando sobre o dia estranho que eu havia tido. Eu só gostaria de colocar minha cabeça no travesseiro. Amanha seria outro dia corrido, meu trabalho começava logo cedo, enquanto eu não tivesse aulas.


Capítulo 2

- Bom dia. – eu disse as duas mulheres sérias que arrumavam o café.
- Nossa sua cara de sono está excelente. – brincou enquanto prendia o cabelo perto do balcão.
- Não consegui dormir muito ontem. – eu disse pegando o meu avental.
- Oi. – o namorado dela que estava ontem junto de e , apareceu sorrindo descendo as escadas do fundo que dava ao apartamento de Marta e . – Eu conheço você?
- Ontem à noite. Esbarrei em vocês.
- Ah! – ele exclamou sorrindo. – Claro.
- O que aconteceu ontem? – disse um pouco irritada, na verdade acho que ela estava um pouco enciumada.
- Eu estava voltando para casa e eu esbarrei em e . – respondi terminando de amarrar o meu avental.
- Você os conhece? – ele perguntou abismado coçando a cabeça de uma forma engraçada.
- Descobrimos que somos vizinhos. – eu fui atrás do balcão organizar as xícaras e pegar café. – E eu sou a .
- . – ele sorriu e assentiu com a cabeça indo até a namorada lhe dar um beijo que me deixou constrangida.
- ! Pare. – disse batendo no namorado, ficando com a face rubra.
- Ok. – ele a mordeu rapidamente o ombro e se despediu de mim e Marta.
- Uau, seu namorado realmente gosta de você. – eu disse a a fazendo rir.
- Qual é! Ele gosta mesmo é de provocar a minha mãe. – ela cochichou. – Ela não gosta muito que fique me agarrando. - Normalmente todas as mães são assim. – eu disse rindo.

O trabalho daquele dia foi tranquilo. Nada de muito surpreendente. Esbarrei com os meninos no elevador, eles me falavam algumas coisas sobre eles. Acredito que eles estavam tentando se redimir por acharem que me assustaram. Gostava de ouvir coisas aleatórias, ou as cantorias deles pelos corredores. Algumas vezes ouvia algumas mulheres gritando e Margareth sempre dizia que eles sabiam como tirar uma mulher do sério.

Conversava com meus pais diariamente à noite. Contava-lhes apenas o necessário, não gostava que eles ficassem apontando defeitos na minha forma de agir, nos amigos que eu formava, no trabalho e o resto. Gostava de como as coisas estavam indo. Caminhava descalça pelo meu apartamento como quem pisasse em algodão, respirava a minha vida. Sentia que faltava alguma coisa.
- Impulsiva. Você precisa ser mais impulsiva. – disse bebericando sua taça de vinho, enquanto eu cortava algumas cenouras.

Era sábado. O café fechava um pouco mais cedo – as sete. jantaria na minha casa, para conversarmos e nos conhecermos mais. Ela era uma ótima pessoa. Passamos no mercado e compramos duas garrafas de vinho, alguns legumes – eu faria Yakissoba. Para a sobremesa compramos sorvete e eu ela faria cupcakes. Estávamos na cozinha, ela sentada em um banquinho sobre a bancada americana e eu cortava os alimentos.
- Olha bem para a minha cara e veja se eu tenho cara de mulher que é impulsiva.
- ! Olha para você! Linda, inteligente, engraçada... Que cara não gostaria de ficar com você? – comia pedaços de chocolate branco que eu havia deixado em um pote cheio de doces.
- Não sei. Realmente não sei se vejo vantagem em mim para alguma coisa. Talvez eu nasci para ficar assim, sozinha, estudando e me dedicando a humanidade. – respondi terminando minha segunda taça de vinho.
- Não seja dramática. – ela riu e mordiscou outro chocolate. – Quando eu conheci , juro para você, meu mundo parou. Um cara lindo entrou na universidade, sorria para mim no corredor. Eu achava que ele tinha pena de mim por eu ser sozinha. Ele fazia sucesso com todo mundo, sempre cheio de amigos e meninas. Porém em uma festa na universidade ele me tirou para dançar e começamos o nosso romance.
- Parece até história de filme. – eu disse colocando o molho shoyu na panela. – Posso dizer que vocês formam um belo casal?
- Claro que pode e deve! – ela riu. – Não me vejo sem ele, posso parecer uma boba apaixonada. Mas você terá o seu momento também. Aliás... Você tem um admirador em Londres.
- Não tenho. Você sonha . – disse provando o macarrão.
- Qual é , você tinha que o ver lendo um livro e dando uma espiadela em você. Ele é uma gracinha. – disse me provocando.

Dei de ombros e coloquei a panela em cima de uma proteção, pois ela estava quente. Observei os pratos sobre a bancada e peguei os talheres.

- Quase uma garrafa. – eu disse a chacoalhando. – Quer outra?
- Depois com os cupcakes quase prontos, sente o cheiro. Hmmm. – sibilou a minha amiga me fazendo rir.
Comemos, vimos alguns clipes passando em algum canal da televisão e os cupcakes foram retirados do forno. O cheiro estava delicioso e junto com o sorvete tudo estava perfeito. Sentia falta de , ela sendo minha melhor amiga, fazia com que eu me sentisse um pouco melhor comigo.
Duas batidas na porta, e eu levantei depois de colocar a taça de vinho quase vazia sobre a mesinha de centro da sala.
- e olá meninos. – os cumprimentei sorrindo, e também estavam ali, e os deixei passar.
- Uau, vocês bebem. – ele riu e beijou a namorada rapidamente, sentando-se ao seu lado. – O cheiro está delicioso.
- Vocês querem uma taça de vinho? – perguntei prendendo os cabelos sentia-me um pouco desconfortável com homens bonitos como eles sentados no meu sofá, eu estava alcoolizada.
- Não, obrigado . Eu devo levar essa mocinha embora. – disse acariciando os cabelos de .
- Eu aceitaria e um cupcake não seria ruim. – agarrou um bolinho e o colocou na boca, fazendo todos gargalharem.
- Eu tenho que pegar uma garota daqui a uma meia hora. – encarou sorrindo com intenções dúbias.

Peguei a minha taça que estava na mesinha e fui até a cozinha e peguei uma taça de vinho e a coloquei para que tomasse comigo.

- Adeus . – ouvi algumas vozes soarem pelo apartamento e me senti certamente ofendida.
- Foram emb... – encarei vendo minha estante de CD’s e DVD’s.
- Aqui. – disse entregando-lhe a taça. – O que você está vendo aí?
- O Poderoso Chefão, Clube da Luta... Você é um menino? – bebeu um pouco de vinho e riu.
- Nada disso, gosto desse tipo de filme. – o acompanhei no gole e sorrimos. – Você quer assistir a algum?
- Na verdade, - colocou a taça de vinho sobre a estante e fez o mesmo com a minha. – Você é muito bonita, está sozinha e eu já bebi algumas cervejas e...

Eu comecei a gargalhar. Fazia isso quando estava nervosa e o puxei pelas mãos e o fiz sentar no sofá comigo. não esperou que eu parasse de rir e segurou o meu pescoço e beijou-me.

Não sabia o que fazer – fiquei naquele impasse besta entre beijá-lo ou não. Eu tinha aquela intuição tosca de que eu tinha que ficar com alguém por quem eu nutrisse algum sentimento. Enquanto eu pensava nisso eu já estava sendo deitada no meu sofá e sendo engolida por um ser totalmente estranho – mentira eu o conhecia, mas superficialmente.

O meu telefone tocou e eu agradeci mentalmente por isso. O empurrei delicadamente.

- Só um minuto. – corri para atendê-lo. – Oi mãe.

começou a rir, balançou a cabeça e voltou a beber e olhar os discos enquanto eu conversava com meus pais. Disse a eles que estava tudo bem, como de costume e avisei-os que eu tinha companhia. Então para não dar muitas explicações logo desliguei e voltei ao lado do cara que havia me beijado há uns cinco minutos atrás.
- Olha ... – eu comecei sem graça.
- Cara, desculpa. Eu só sei lá te achei interessante. – ele disse terminando de beber.
- Acho que a gente pode recomeçar do zero. – eu disse tentando me entender, afinal eu não estava sã. – Eu sou , vim do Brasil, tenho 20 anos e faço faculdade de engenharia.

começou a rir e ele ajeitou o cabelo. E eu o encarei, incentivando-o a fazer o mesmo que eu.
- , tenho 20 anos e faço música. Estudo na Universidade de Londres e gosto de ser palhaço às vezes.
- Ótimo começo! – eu gargalhei.

Conversamos sobre todas as coisas possíveis. Ele era um doce, engraçado e beijava bem. Sim nos beijamos algumas vezes mais, vimos um filme e acabamos adormecendo no sofá.

O celular dele tocava pela terceira vez e então a claridade invadiu-nos.

- Bom dia little girl. – ele disse me beijando devagar e pegou o celular que estava caído no tapete. – Alo? Ok eu estou indo.
- Não vi a hora passar. – eu disse ajeitando as minhas vestes amassadas. – Gostei muito da noite passada.
- Eu também. – ele sorriu e beijou-me novamente, mas dessa vez com um pouco mais de intensidade, me fazendo ficar nas pontas dos pés e abrir um leve sorriso.
- Te vejo amanhã na universidade. – disse abrindo-lhe a porta.
- Sem dúvidas. – ele sorriu e me roubou um outro beijo.

Fechei a porta e respirei fundo. Eu havia entrado em algum tipo de relacionamento. O meu primeiro envolvimento com alguém em Londres. Eu não estava apaixonada, por ele. Acho que era apenas uma atração, um começo para que as coisas evoluíssem.

Marta havia me ligado 15 vezes. Era quase uma hora e eu estava atrasada para o domingo. Corri para o banheiro fazer a minha higiene e coloquei uma roupa qualquer. Passei apenas um rímel nos cílios e corri para o café o mais rápido que pude.

- Desculpem! – eu disse um pouco ofegante ao ver virando o cartão da porta para OPEN.
- A noite foi boa! – disse encarando a mãe rindo.
- Há-há –sibilei e procurei o meu avental. – Vocês são imprestáveis.
- Mas me diz. – minha amiga disse se aproximando de mim e cochichou. – Gostou dele?
- A gente só ficou nos beijinhos e conversas. Foi divertido.
- Divertido... – revirou os olhos e respondeu. – Divertido é com qualquer um.
Dei de ombros e ajudei Marta a organizar o caixa.

passou por lá a tarde para pegar uns cafés para ele e os meninos. Brincou com a minha situação e depois a tarde foi ficando movimentada para me manter ocupada.
- ! – agarrou meu braço e me puxou para o outro canto do café. – O seu admirador lindo tá aqui!
- Não brinca! Cadê!? – eu perguntei um pouco desesperada.
- Ele vai ter que se manifestar. – ela disse rindo e saiu me deixando no vácuo a procura de algum rosto encantador.

Havia muita gente naquele lugar, estava um pouco frio e mais pessoas procurariam por cafés/chás e outras coisas para se alimentarem. E aquele cabelo pareceu brilhar para mim e ele estava sentado de costas. Novamente seu rosto era um mistério. Sorri em silêncio. Um admirador. Gostava disso. Essas coisas misteriosas, essa platonização de amores.

Continuei trabalhando normalmente e ele não virou uma vez se quer. me encarava incrédula que ele não havia tomado a iniciativa de me encarar. Dei de ombros sem entender e entreguei para Marta o dinheiro que os clientes me pagavam. As pessoas começavam a ir embora e ele ainda estava quieto.

- Quem é aquele cara? – cochichei para Marta, apoiando-me no balcão.
- Ele é um garoto que mora aqui perto. Lindo. – ela piscou para mim e tossiu.
- Boa tarde. – enfim eu conhecia o rosto daquele homem que havia me devorado com os olhos e que olhos eram aqueles? Doces e intrigantes.

Ele abriu um sorriso que quase derreteu o meu coração e eu corei. Maldição!
- , você fecha o caixa para mim? Não estou me sentindo muito bem. – Marta disse segurando minhas mãos e eu entendi o que ela estava fazendo.
- Tudo bem. – passei para o outro lado do caixa e sorri para o admirador.
- . Nome legal. – ele disse pegando a carteira.
- Obrigada. – ao longe vi vibrando com as mãos me fazendo rir.
- O que foi? – ele perguntou rindo junto.
- Ah nada. – eu disse corando ao encarar aquele riso incrivelmente perfeito para todo o conjunto dele.
- Acho que é isso. – ele disse passando as mãos pelos cabelos castanhos claros.
- Hm. – engoli seco contando o dinheiro dele. – Aqui tem três cafés.
- Tudo bem, um fica para você, se você não se importar.

Queria me esconder dentro de um bueiro e não sair mais. Como que um cara lindo, com uma voz rouca diria essas coisas para uma pobre mortal como eu?

- Muito obrigada...
- . – ele respondeu sorrindo, me quebrando inteira. – Vejo você por aí .

Ele saiu pela porta e eu encarei incrédula com o que havia acabado de acontecer.

- O que foi que ele disse? – ela correu até mim com uma vassoura em mãos. – Me diz logo.
- See you around! – eu disse rindo.

Capítulo 3

Calcei os meus sapatos pretos e coloquei minha jaqueta preta, uma bandana vermelha prendendo os cabelos, passei sobre os cílios o rímel e um batom cor nude nos lábios. Seria o meu primeiro dia na universidade e a ansiedade tomava conta de mim. As inglesas era estilosas e eu tinha que me destacar pela minha inteligência. Eu queria voltar para o Brasil sendo reconhecida. Fazer uma vida perfeita, me apaixonar e ter sucesso. Acho que eu queria o que todo mundo um dia quis. estaria me esperando com os meninos.

- TOC, TOC! – bateu a porta gritando me fazendo
- Estou indo. – peguei minha bolsa preta de couro e corri para a
- Uau! – disse sorrindo e me dando um beijo rápido.
- Olá. – eu sorri sem graça aos dois. – Que tal?
- Linda. – disse dando dois tapinhas nas costas de . – A gente tem que ir logo, se você não tomou café não se preocupe que trouxe cupcakes e cafés.
- Sei escolher bons amigos. – eu disse rindo indo com eles até o elevador.

- Bom dia! – disse entrando no banco de trás do banco.
- Adorei o look. – disse sorrindo. – , eu! – ela disse se fazendo de brava.
- Eu estou tão normal, não sei qual é a surpresa.
- Você tem um corpo cheio de curvas e você tem bumbum e peitos. – disse passando o braço pelo meu ombro e olhando para os meus seios.
- Para! – eu disse me encolhendo, fazendo todos rirem.
Ficamos conversando e eles me explicavam algumas coisas sobre a universidade, como era diferente do Brasil. Eu lhes explicava bastante coisa sobre como funcionavam as coisas no meu país e era legal ver o interesse deles. Os meninos batucavam algumas canções do Ramones e era engraçado como eles conseguiam cantar bem e fazer todo mundo rir.
Saímos do carro e entramos na faculdade. Era gigantesca, recebi no meu celular uma mensagem de :

“Bom começo de aulas, daqui a um mês eu estarei aí te visitando! Amo você!”

Fiquei feliz de receber esse apoio dela, o como eu gosto dela.

- Não acredito! – dizia animado a alguém.
- !

Quando eu e nos viramos e encontramos abraçando ficamos em um silêncio intenso. Como eles se conheciam? Que tipo de mundo era esse tão grande e ao mesmo tempo tão pequeno? Abaixei a cabeça e se aproximou de mim.

- Eu não estou acreditando. – ela cochichou e engatou seu braço ao meu.
- Caraca, não esperava ver você tão cedo! – disse animado. – Desde que meu pai se mudou para os EUA eu achei que você fosse ficar na Irlanda.
- O intercambio foi bom, mas eu fiquei aqui né. – dizia sorrindo. – Antes de a gente conversar me deixa apresentar você para o pessoal. Gente esse é o , meu amigo de infância.
- Olá . – todos nós dissemos em coro e eu o vi olhar para mim.
- , certo? – ele disse sorrindo apertando a minha mão.
- Sim. – encontrei os olhos de um pouco confusos sobre nós dois. – Nos conhecemos no café semana passada.
- Então você conheceu a minha garota? – disse brincalhão, fazendo ficar sério e eu um pouco assustada.

riu e cutucou-me com o cotovelo a minha barriga. me chamando de minha garota. Fiquei contente com isso, não totalmente, pelo fato de ter me atraído muito também.

- Vamos entrando pessoal porque não podemos chegar atrasados.

ia para a área de sociologia. Chegamos correndo as nossas salas, havíamos pegado os nossos calendários universitários e então já sabíamos as salas. O pessoal da minha sala era animado. Um menino sorridente sentou ao meu lado. Ele era bem branco e muito loiro.

- Hey.
- Oi. – eu o cumprimentei sorrindo também.
- Eu acho que vi você andando com . – ele disse virando o seu corpo para mim.
- Você o conhece também? – indaguei surpresa.
Parece que todo mundo conhece ele. Seria bem plausível, era lindo, gentil, engraçado e ainda tocava violão. Quem é que não gostaria de ter alguém assim do lado?

- Eu cheguei ontem da Irlanda, ele ficou hospedado na minha casa quando fez intercâmbio. – ele dizia sorrindo. – E você o conhece como?
- Ah. A gente se conheceu semana passada e estamos saindo juntos. – eu tentei parecer animada. Não que eu não gostasse do , era só falta de algo a mais.

Depois que as aulas terminaram todos foram para os seus trabalhos de meio período. Morar em Londres tinha suas vantagens, mas era preciso ficar ocupado. A melancolia da cidade era contagiante.
Voltei para casa a pé, havia passado no café e foi minha companhia durante o trajeto. Eu gostava do jeito dele – despojado, brincalhão. A risada dele engraçada, talvez estivesse nesses pequenos detalhes dele coisas que fizessem com que eu me apaixonasse. Ficamos conversando sobre escolhas profissionais e sobre o futuro. Ele queria cantar, ter isso como profissão – e olha que ele seria realmente muito talentoso.
- Você sabe, não é? – eu disse sorrindo abrindo a porta do meu apartamento. – Você dará um ótimo músico.
- Por que você acha isso? – ele disse sem graça fechando a porta.
- Você tem carisma, beleza. Você conquista as pessoas facilmente. – ele seguia os meus passos até a cozinha.
- E eu conquistei você facilmente? – ele disse me prendendo entre os seus braços e a bancada americana.

Fechei os olhos e sorri. Coloquei minhas mãos entorno do pescoço de e ele me beijou. Ficamos nos beijando alguns minutos, até ele me sentar na bancada e acariciar as minhas coxas e eu comecei a ficar assustada. Ele sorria tão docemente que me partia o coração, eu não queria que ele se apaixonasse por mim. Talvez eu estivesse sendo precipitada demais, talvez ele só queira outro colo de mulher e talvez, novamente, eu encaixava nesse lugar.
Nunca tive espaço para nada na vida de ninguém.
Deixei que ele me tocasse, me experimentasse e eu fiz o mesmo. Comecei a conhecê-lo pele a pele, ele me segurou no colo e fomos até o sofá.
A porta do apartamento começou a bater e ouvimos a voz de .

- Pervertidos, parem o que estão fazendo e venham abrir para mim. – repetia cantarolando nos fazendo gargalhar.
segurou a minha mão e fomos até a porta.

- Hm. – fez uma careta engraçada. – Atrapalhei muito?
- O que houve? – disse me abraçando pela cintura e colocando o queixo sobre o meu ombro.
- Vocês são tão fofos juntos. – ele brincou novamente. – está vindo, ele ligou no seu celular e você o deixou em cima da escrivaninha.
- Ok. Vou indo. – me virou para ele, me beijou e depois a testa. – Te vejo amanhã.
- Tchau . – disse e eu fechei a porta.

Sentei sobre o sofá e liguei para . Queria contar a ela tudo que estava acontecendo. O meu relacionamento, a paixonite pelo admirador e como eu estava gostando de estar em Londres. Era o nosso sonho desde menininhas estarmos na Inglaterra e viver uma felicidade nunca experimentada. Eu estava realmente respirando uma vida que eu sempre quis.
Conversamos pelo telefone durante quase duas horas. Dava graças por ter um plano que não me custava muito. Chorei ao desligar. Era quase meia noite e eu precisava dormir. Fui até o banheiro escovei os dentes, prendi o cabelo e coloquei uma calça azul de bolinhas brancas e uma regata branca para dormir. Arrastei-me até o quarto e apaguei.
Lembro-me de sonhar com dormindo ao meu lado e me acordando carinhosamente. O que me acordou foi uma mensagem de dizendo que estariam me esperando lá embaixo.
A faculdade era algo a parte. Os professores eram excelentes, as pessoas também eram, se você soubesse como lidar com elas.
era a exceção. Ele não tinha conseguido falar com no dia anterior e hoje, logo ao chegarmos à faculdade ele o viu e correu para cumprimenta-lo.

- Quem é o cara? – disse entrelaçando seus dedos com os de .
- Amigo do intercambio. – disse fazendo um coque no meu cabelo. – Droga de sapato.

e riram e caminhavam para dentro da universidade, sentei-me no gramado da frente com e .

- Sabe, eu ficaria tomando sol aqui o dia inteiro. – eu disse esticando os braços.
- Você é bem folgada. – disse esticando as pernas e colocando as mãos atrás da cabeça.
- Olha quem diz. – eu o empurrei.

Encontrei os olhos de rindo para os meus e como não havia muito que dizer a ele, apenas sorri. Coloquei meus óculos de sol e ficamos em silêncio, não tínhamos a primeira aula e então poderíamos ficar ali.

- E aí . – um cara alto e bonito apareceu e levantou-se para conversar com ele.
- Vocês conhecem bastante gente por aqui. – eu disse, tentando puxar assunto com .
- Olha é até você começar a fazer mais contatos. Não somos tão inamigáveis assim.

Eu ri, estava nervosa. O olhar dele, o jeito e o café que ele havia me pagado aquele dia no café me deixavam um tanto encabulada. Fiquei encarando os meus pés, sem a minha sapatilha que me machucava.

- .

Virei-me para .

- Olha... Eu não sabia que você estava com alguém, desculpe te incomodar aquele dia no café. – ele dizia gaguejando o que me fez sorrir, ele estava envergonhado por ter feito aquilo. Porém isso só atenuou a beleza dele.
Droga.

- Não tem problema. – eu disse sorrindo a ele. – Na verdade mesmo eu e o estamos nos conhecendo melhor, é uma novidade para mim também.
- é um cara legal. – ele disse esboçando um sorriso.
- Então tá legal, a gente se vê. – disse ao homem e voltou a sentar conosco. – Festa de calouros hoje a noite.
- Uhul. – eu fingi empolgação.
- Você não gosta desse tipo de festa? – perguntou com os olhos arregalados.
- Gosto, mas não estou muito no clima.
- vai pirar. Ele sempre pega algumas calouras. Na verdade ele já está fazendo isso. – implicou rindo.
- O que eu posso dizer? – eu deixei os óculos caírem sobre a ponta do nariz e encarei mortalmente.
- Uh. Você tá me assustando tanto que dá vontade de te morder. – ele disse se jogando sobre mim e me fazendo cócegas.
- Para ! – eu gritava rindo.
- E você vai ficar aí parado? – disse incentivando a entrar na brincadeira.

Os dois começaram a judiar de mim na frente da universidade. Eu implorava para que eles parassem e eu estava vermelha, já não aguentava mais e os dois bobalhões pararam quando não se aguentavam de tanto rir.

- Muito bonito... Vocês dois. – eu disse irritada, limpando-me de grama.
- Você ainda está com a bunda gostosa. – disse e concordou assentindo com a cabeça.

Mostrei-lhes o dedo do meio e eles levantaram-se e adentraram a universidade comigo a procura de e .

- , por que você está toda vermelha? – disse me deixando sentar ao seu lado.
- Porque esses imbecis não paravam de me incomodar. – eu disse séria fazendo rir. – Não ria colega, ou você será meu próximo na lista negra!
Os quatro riram.
- Não fique assim. – disse me segurando pelo pescoço e me dando um beijo suave nos lábios.
- Temos festa hoje. – disse coçando a nuca. – Calouros.
- Sabe a gente podia cantar lá. – disse a .
- Hm. – abraçava-me pela cintura e encarava de uma forma engraçada. – Pode ser uma boa ideia. vai nos ajudar.
- você canta? – perguntei surpresa.
- Ah, faz tempo que eu não canto mais. Cantava no coral da igreja.
- Que gracinha. – soltei e depois sorri. Não podia me entregar muito.
- Bom vamos indo as nossas salas. – falou levantando do banco.

Depois das aulas, voltei com e para o café e eles estavam mais silenciosos que o normal.
- O que houve? – perguntei a após ir embora.

Ela olhou para os lados e suspirou colocando o avental.

- está estranho comigo. Ele não anda me contando algumas coisas e acho que ele vai voltar para a casa da mãe dele, no interior.
- Sério isso? – respondi espantada com a reação dele. Pareciam tão apaixonados mais cedo e depois de um piscar de olhos as coisas ficaram estranhas? – O que você acha que está acontecendo?
- Acho que ele está com outra garota. Já perguntei, mas ele disse que não. Ele nem quer ver filme comigo hoje à noite porque ele tem trabalho da faculdade.
- Por que nós não vamos hoje à noite à festa de calouros?
- Será? – ela perguntou vendo clientes novos chegando e encarando as mãos. – Tá, você vai me ajudar a me deixar linda.
- Como se precisasse. – disse sorrindo e começamos a atender as pessoas que chegavam ao café.

O trabalho no café era agitado. As cantadas, os clientes mal humorados, as entregas para outros clientes. Tudo tinha um sabor diferente. Marta era uma mulher legal também, fazia o possível para que e ela tivessem uma vida boa, o café realmente trazia bastante lucro. tinha uma vida boa, seu pai era do exercito estadunidense, então poucas vezes ao ano ela o via.
Marta despedia-se dos últimos clientes e fechava a loja quando apareceu do lado do fora me chamando. ergueu as sobrancelhas e fez um gesto com as mãos para que eu fosse e disse que estaria me esperando lá em cima e Marta me deu as chaves para depois fechar.

- Hey. – eu disse um pouco sem graça.
- Vocês vão querer carona para mais tarde?
- Como vocês sabem que vamos? – perguntei escorando minhas costas no vidro da cafeteria.
- Vamos dizer que essa festa é legendária e vocês se remoeriam depois se não fossem. – ele disse abrindo aquele sorriso com aquelas covinhas amáveis e eu me segurei para não pular no pescoço dele naquele exato momento.
- Vou acreditar nisso. – eu sorri. – Quer entrar?
- Na verdade se tiver um pouco de café, eu gostaria, tenho que me trocar em casa e depois vou para os meninos. – ele dizia enquanto me acompanhava.
- Sobrou um pouco de café preto. – eu disse indo até a cafeteira marrom escura e servi o resto de café para . – Açúcar, creme?
- Creme. – ele respondeu olhando para as paredes cheia de quadros. – Acho muito legal essa nova decoração.
- Nova? – eu perguntei sentando em um banco ao lado do dele.
- É. – ele riu e bebeu um cole do café. – Aqui antes era uma padaria, eu trabalhei aqui.
- Jura? Que diferente.
- Por quê? – ele perguntou instigado.
- Sei lá, você não tem cara de quem trabalha em uma padaria. – eu comentei rindo. – Não sei se tem que ter cara para fazer alguma coisa.

Nós nos olhamos e ficou aquele clima intenso de olhares e uma vontade gigantesca de se perder um no outro. Por que eu estava sentindo isso? Por que ele tinha que aparecer justamente na mesma hora que eu havia encontrado um cara legal? Respirei fundo e ergui as sobrancelhas e abri um sorriso.

- Se você não se importa, nós duas temos que ficar lindas. – eu falei levantando do banco e lhe dando dois tapinhas no ombro.
- Então vocês vão demorar...
- Idiota! – eu lhe estapeei até a saída o fazendo rir. – Não ouse olhar para mim e para minha amiga quando estivermos barbaramente maravilhosas e esplendorosas.
- Vamos ver se vocês vão conseguir. – ele piscou e correu com o café nas mãos. – Até mais, beautiful.

Eu abaixei a cabeça e sorri. Eu estava completamente ferrada.

- Eu não consegui, desculpe. – disse aparecendo atrás de mim.
- O que?
- Não espiar. Vocês tem muita química. O que me desculpe, mas vocês dois...
- Não complica. – eu disse entrando para a loja e fechando a porta.
- Ele está caidinho por você e você por ele. – ela disse rindo e me cutucando. – Vamos subir, eu te empresto uma roupa.

Peguei um vestido azul escuro tomara que caia, coloquei a minha sapatilha mesmo e fiz um topete no cabelo e o deixei solto. A maquiagem era simples, batom vermelho e delineador. havia escolhido uma saia preta de cintura alta e uma regata branca de seda, salto preto e um rabo de cavalo bem alto.

- Acho que estamos bem. – nós duas nos encaramos no espelho e ela pegou o celular para tirar uma foto e colocar no instagram.
- Vamos indo, vou ligar para .

Liguei para ele e quem atendeu foi que fazia piadas e gritava com os meninos que estavam nos esperando já.
- UAU! – disse me roubando um beijo. – Eu realmente sei escolher uma garota bonita e se você não estivesse com certamente receberia um beijo meu também.
e eu rimos.

- Você não presta. – lhe deu um tapa no braço e nós entramos no carro.
- Vou assumir vocês conseguiram. – disse me encarando, enquanto sentava sobre as pernas de .
- Não quero papo com você. – me fiz de brava e rimos. – disse que nós não ficaríamos bonitas.
- Como ousa? – disse erguendo o tom de voz.
- Onde está ? – perguntou enquanto trocava de marcha.
- Ficou em casa estudando. –ela disse dando de ombros. – Trabalhos da faculdade.
- Ele nos disse que ia. – cochichou em meu ouvido.

Virei meu rosto para ele e o encarei espantada. Seria mesmo verdade?

Capítulo 4

Chegamos à festa de calouros sem muita extravagância. Demos risadas e começamos a beber. Conheci alguns veteranos, queridos. sempre por perto, me abraçando pela cintura, dançando comigo e me fazendo tirar o fôlego com seus beijos indecentes e o seu jeito inapropriado de ser – que me atraia um bocado.

- Já venho. – dei um selinho em e fui até que estava com algumas calouras e veteranas bebendo em um sofá.
- Olá. – gritou exaltada devido ao excesso de álcool em seu organismo.
- Olá. – eu disse puxando-a pelo braço. – Com licença.
- O que? – ela me encarou irritada.
- , você já está bebendo demais. não está aqui para te levar para casa e nem para cuidar de você.
- Você não precisa me falar nada, você não é minha mãe. E você acabou de chegar, pega o cara mais gostoso da universidade e o melhor amiguinho dele dando em cima de você. Se preocupe com sua reputação. – ela disse rindo e me mostrando o dedo do meio.

Eu não posso dizer como fiquei chocada com a reação dela. Mas eu sabia que ela estava bêbada e tentando reverter sua tristeza com isso. havia a machucado e era certo que eles precisavam de um tempo para suas cabeças, mas não cometendo mais burradas.
Deixei-a lá com as outras gurias que me encaravam com desprezo e entrei para o salão. Era um lugar enorme, fui até o bar e peguei um conhaque e fiquei sentada lá, esperando minha cabeça digerir o que havia me falado. Ficava, enquanto isso, observando as pessoas. Algumas estavam estendidas no chão bebendo tequila, vodca, cerveja e usando muita, muita droga. Doce, cocaína...
E foi então que vi atracado no sofá do canto direito com uma guria. E eu iria me meter? Logicamente que sim.
- Oi . – eu disse cutucando suas pernas com a ponta dos meus pés.
- . – ele disse coçando a nuca. – Achei que você não fosse vir. Os meninos disseram...
- E sua namorada está lá fora no jardim. Eu não preciso dizer mais nada, não é? – vi entrando pela porta do salão e vindo em minha direção.
- Cara, o que você tá fazendo? – disse segurando minha cintura e encarando . – Tua namorada está aí.
- Porra, vocês não precisam ficar jogando na minha cara. – ele refutou irritado e encarou a loira saindo do sofá e dizendo a ele algo como “nos vemos depois”.
levantou e foi embora.
- Então tudo bem. – eu disse pegando a mão de e voltando até o jardim. – Eu não acredito que ele fez isso.
- E a está bebendo demais. – ele disse preocupado. – Será que a gente a leva embora?
- Acho que...
- AJUDA! ALGUÉM AJUDA! – uma morena alta gritava desesperada em torno de um círculo de pessoas.

e eu corremos até lá e vimos entrando em convulsão. Senti minhas pernas tremerem e eu não sabia o que fazer. Pedi a que ligasse para a emergência e os outros meninos vieram correndo.

- O que ela fez? – perguntei as meninas que estavam chorando ao nosso entorno. – O QUE RAIOS ELA FEZ?
- Ela... ela misturou álcool e cocaína. – Magie, uma veterana, dizia aos prantos. – Eu disse a ela para não fazer isso.
Assenti com a cabeça e segurava sua cabeça, acho que tinha visto algo assim em filmes. Tentava me manter calma, enquanto o socorro chegava. foi para frente do salão e se ajoelhou ao meu lado.
- A gente precisa tirá-la do chão. Ela apagou agora. – dizia afagando meus cabelos.
Eu estava tão nervosa que não havia percebido que ela havia desmaiado. Comecei a chorar e concordei com ele. Colocamo-la em um sofazinho de madeira, que tinha almofadas vermelhas. Fiquei segurando sua mão e rezando para que ela não estivesse tão ruim quanto parecia. Ela estava pálida e parecia não respirar.
- Saiam todos da frente, saiam! – gritavam alguns homens correndo com uma maca. – Qual é o nome dela?
- . – respondi limpando minhas lágrimas. – Por favor...
- Eu vou com ela. – disse beijando minha testa e caminhando com os homens. – Eu ligo logo do hospital. – ele terminou de gritar.
- Caramba, não sabia que você pegava o . – uma menina comentou erguendo as sobrancelhas.
- Dá pra calar a boca? – disse exaltado. – Uma menina acabou de ir para o hospital.
A outra arregalou os olhos e saiu vagarosamente dali.
- Obrigada. – eu disse dando de ombros e nós dois nos abraçamos. – Que susto.
- Ela vai ficar bem. – ele disse acariciando minhas costas com a ponta dos dedos era confortante.

veio até mim ao lado de e os dois me abraçaram junto com .

- Precisam ligar para . – eu disse me recompondo. – Alguém liga para ele agora!
ligava no meu celular, ele disse o hospital onde estavam e ela já estava internada.

- disse que ela já está internada, vocês vão ao hospital? – eu perguntei guardando meu celular.
- Vamos.
- não atende. Acho que podíamos passar busca-lo. – disse rapidamente desligando o telefone. – vem comigo, acompanha a . Nos encontramos no hospital.
- O hospital não é muito longe daqui, você quer ir a pé? – disse tocando meu ombro.
- Vamos. Assim eu vou espairecendo a cabeça. – engatei meu braço com o de e fomos saindo do local. – A música até voltou. – eu disse tentando rir.
- Tive um amigo que passou pela mesma coisa. – disse rindo. – Foi um susto grande e os pais dele quase mataram ele.
- Ela estava alterada demais hoje. A culpa foi minha. – falei enquanto era abraçada pelo casaco de sobre o meu corpo. – Não devia tê-la incentivado a vir.
- Amigos fazem isso. E você está preocupada com ela, vai dar tudo certo. – ele me aproximou dele com um abraço. Até que não era tão ruim ter ele como amigo.
- Ainda me sinto culpada, sabe? Mas espero que fique tudo bem.
- Você avisou a mãe dela?
- Não e acho que não vou avisar. – disse arrumando o casaco sobre o meu corpo. – Ela teria um treco e eu ficaria me sentindo muito mal.
- Mas ela precisa saber. Se coloque no lugar dela . – ele disse um tanto sério demais e aquilo me fez refletir. Eu estava com medo de que a mãe dela brigasse com ela ou surtasse. Mas se eu tivesse um filho, eu realmente gostaria de saber se estava tudo bem com ele.
- Quando chegarmos ao hospital ligarei.

Três quadras depois, chegamos ao hospital. Era enorme e tudo muito organizado. estava esperando na entrada com o celular em mãos. Ele me abraçou forte e eu senti um fluxo de carinho e preocupação percorrendo o corpo dele para o meu. Era como se ele estivesse emanando toda àquela preciosa atenção.
- Obrigada. – sussurrei e entramos no hospital, abraçados.
- Onde ela está? – chegou atrás de nós desesperado.
- Ela está bem cara. – se soltou de mim e segurou o amigo que estava com os olhos marejados. – Não adianta se exaltar. Só três podem subir.
- Eu vou. – disse um pouco mais calmo com a voz engasgada. – vem comigo, também.

Concordamos e subimos em silêncio para o quarto de . Ela estava respirando normalmente, suas vestes agora eram azuis, o quarto era bege claro e estava com pouca iluminação, ela estava tomando soro.

- Meu amor. – disse tapando a boca e sentando ao lado dela sobre a cama. – Me perdoe, eu sou um canalha.
- Vamos sair? – eu cochichei para e ficamos do lado de fora do quarto.
- Que situação. – ele disse me puxando para um abraço. – Espero que eles se acertem logo.
- Eu que mal os conheço já fico triste por estarem assim. – eu repeti palavras que eu já tinha dito a mim mesma minutos antes. – Como é estranho ter acontecido tanta coisa em uma noite só.
- Sentimentos. Eles fazem coisas incríveis em relacionamentos. – disse encostando-se à parede.
- Ainda não entendo muito disso, então não posso dizer. – comentei um pouco chateada pela minha falta de experiência.
- Tenha certeza, , que experiência pra ti nunca vai faltar. – riu.
- O que o senhor quer dizer com isso? – perguntei o encarando.
- Você sabe...
- Sei o que ?
- e . – ele disse com uma naturalidade que me dava raiva.
- Como assim e ? – eu o empurrei contra a parede. – Me explica.
- Você ainda não percebeu que o está louco pra te pegar? – disse revirando os olhos e coçando a barba rala.
- Nada a ver. – eu disse lhe dando um tapa no braço.
- Outch! – ele exclamou e riu. – Você também tem uma quedinha por ele, dá pra ver quando vocês se olham... Aquela tensão entre amantes.
- Que amantes, o que . Cala a boca! – dei alguns passos em sua direção oposta pensando sobre o que ele havia dito.
- Você sabe que é verdade. Só não quero ninguém se machucando.
- Como se não fosse inevitável que alguém sairá ferido dessa.
- Eu disse. – ele deu de ombro e eu encostei minha cabeça nele. – Descubra quem você ama, para depois cuidar de quem você gosta.
- Que lindo isso . – eu disse sem me mover. – Você tem um lado emocional bem aflorado.
- Não sei se isso é bom ou ruim, talvez me torne meio afeminado, mas possa ajudar.

Gargalhamos e depois fomos repreendidos por nós mesmos que lembramos somente depois que estávamos no hospital.
Dei duas batidas na porta do quarto e estava deitado com .

- ...- falei o mais baixo que pude. – Vou ligar para Marta se estiver tudo bem pra você.
- Tudo bem. – ele respondeu sem emoção alguma e eu fechei a porta do quarto para realizar a ligação.
Liguei para Marta, que demorou um pouco a atender, certamente ela já estava dormindo.
- Pois não .
- Perdão ligar a essa hora, mas a senhora precisa vir até o hospital no lado leste. está internada aqui. – eu tentei dizer sem me enrolar muito e tentando transparecer calmaria.
- O que ela tem? Meu Deus! Estou indo para aí! Me espere na entrada!

O telefone foi desligado e eu encarei um pouco assustada.

- Ela está vindo. Porém, está desesperada. – comentei segurando o braço de . – Vamos descer.
- O que houve? – perguntou descruzando as pernas e vindo até mim. – Ligou para ela?

Assenti com a cabeça e o abracei, começando a chorar. Quanta confusão e quanto medo. Eu não queria causar nada disso aos meus pais. Queria que eles tivessem a certeza que eu fosse responsável, que eu soubesse me cuidar. Ele acariciava os meus cabelos e pedia que eu me acalmasse. Sentamos no sofá da recepção e ficamos em silêncio até ouvir os passos e os gritos de preocupação de Marta.
- Onde ela esta? – ela perguntava a nós. – O que houve?
- Se acalme senhora. – uma enfermeira magrinha apareceu segurando seu braço. – O que posso ajudar?
- Minha filha está internada aqui. – ela dizia limpando o rosto com as costas das mãos.
- Como é o nome dela? – a enfermeira a acompanhava tranquilamente pelo corredor, enquanto eu encostei meu rosto sobre o peito de , enquanto ele passava as mãos pelos meus cabelos.
- Vamos embora? – perguntou alisando as coxas impacientemente. – Não há muito que fazer aqui.
- Vamos sim. – disse passando as mãos sobre os cabelos. – Estamos todos cansados e estressados, precisamos dormir, amanhã retornaremos aqui.

Todos concordaram e fomos para nossas casas. Nos despedimos de e que ficavam antes até o trajeto do prédio. estava no celular com alguma menina, enquanto estávamos esperando o elevador.

- .
Ele atendeu o meu chamado, encarando o meu rosto.
- Pode passar a noite comigo?
Puxou-me para perto dele e beijou-me o topo da cabeça. Era bom se sentir protegida.
sorria para nós e fomos para os nossos apartamentos.
- Estou um pouco cansada e amedrontada com tudo isso hoje.
- Imagino. – ele disse tirando a camisa e beijando-me os ombros e sentando sobre a cama. – Quer que eu durma na sala?
- Não vou fazer algo a mais com você, mas você pode dormir comigo. – eu respondi sem graça, do banheiro, enquanto trocava de roupa.
- Tudo bem. – ele respondeu se jogando sobre a cama. – Não vou achar ruim.
Sorri para mim ao espelho e escovei os dentes. Prendi o cabelo e corri para a cama de shorts preto e uma blusa branca antiga do Ramones.
- Gostei da camisa, pena que eu não possa tirá-la. – disse me abraçando na cintura e eu segurei suas mãos com as minhas. – Quem sabe um dia...
Apertei suas mãos contra as minhas e fiquei em silêncio apreciando a minha cama e a companhia dele comigo.

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